_Hum-hum, anotei tudo. _ Angélica confirmou para Daniel que havia acabado de escrever seu endereço. Mas não era verdade, pois já tinha tomado nota daquilo muito tempo antes, quando a própria mãe do rapaz lhe dera. Ali ao telefone, porém, queria parecer que iria negociar tudo com ele e não que as coisas já estavam arranjadas. Esse foi um conselho deixado por Daniela.
A mãe de Angélica havia lhe dito que esta mulher poderia fazer com que tudo desse certo no Rio de Janeiro. Não que concordasse com a partida da filha, mas se isso tivesse que ser feito, então, que fosse com as maiores probabilidades de que desse certo.
Algo lhe dizia que a chave mestra na verdade estava com o dono daquela voz ao telefone. Como seria? Pela maneira como falava podia garantir que não estava muito motivado em contratá-la. Parecia cansado, com voz arrastada.
Isso era até ela se apresentar e mostrar tudo que era capaz, preferiu pensar assim para aumentar a auto-estima. Alinhou a postura, respirou fundo e sentiu que podia fazer aquilo. Mas na sua frente estava um pequeno impasse: Rique. O menino devorava o toco da maçã até às sementes.
_ Mãe, essa casa é de quem? _perguntou o garoto, quando eles chegaram na frente do casarão onde Daniel morava e abrigava sua casa de cultura.
_Eu pretendo trabalhar aqui. _ ela apontou com o dedo indicador esticado para a porta que se via através das frestas do portão. _ Só preciso que você fique muito quietinho, tá?_ ela piscou o olho para o menino e apertou a campanhia.
_Oi, eu sou a Angélica, que você falou pelo telefone._ identificou-se e antes que continuasse ouviu um “pode entrar” sem tom de boas vindas.
Daniel caminhou pela sala e antes de pegar na maçaneta ouviu a voz de sua mãe no ouvido: “Ela é diferente”. Só que o que viu não pareceu ser uma mulher futurista e sim uma... uma... mulher comum, vestida com uma saia comprida azul claro, uma blusa branca social com algumas riscas pretas e um pequeno brinco que brilhava na ponta de suas orelhas.
_Oi._ ela sorriu e apresentou seu filho. _ Esse é o Henrique, meu filho. Eu não tive com quem deixa-lo, espero que não se importe de eu traze-lo...
_Claro que não! _ Daniel riu._ Essa não é uma entrevista para uma multinacional. Aliás, eu nem sei se posso chamar isso de entrevista._ ele apontou para o sofá, onde se sentaram.
A campanhia em seguida tocou e ele levantou-se para atender o entregador de pizza.
_Gosta? _ perguntou para Rique, quando viu os olhos dos menino brilhar.
_Posso, mãe?_ ele perguntou com um gritinho.
_Rique, não... Ele... não..._ Angélica falou baixinho, sem graça.
_ Vem cá, menino, sua mãe deve estar morta de vergonha, mas não devemos estar com vergonha por sentirmos fome._ Daniel levantou a tampa da caixa.
_Uauuu... _ o menino ficou surpreso, fazia muito tempo que não via uma como aquela.
_Então, o que minha mãe falou para você._ Daniel perguntou pegando uma das fatias com a mão. Aquilo conseguia tirar completamente a atenção de Angélica. Como ele podia comer se desinfectar?
_Bem, ela me disse que precisava de alguém para administrar esse lugar.
_Eu preciso?_ aquilo soou mais como uma pergunta retórica. _ O que ela chama de administradora?
_Bom, eu me formei em administração. Sei fazer planilhas de pagamento, conferir estoques...
_..._ Daniel deu uma risada._ Você sabe o que é esse lugar?_ deu um segundo para a resposta, mas esta ele mesmo daria._ É uma casa de Cultura. Aqui a minha companhia de teatro ensaia, tem também aulas particulares... Enfim, como pode ver isso não é uma empresa.
Angélica olhou-o e percebeu que aquilo era um desafio à prova de sua capacidade, mas ela não deixaria com que ele provasse que não precisava dela:
_Você é a sua própria empresa. Se não tem planilhas de pagamento, tem planilhas de matrículas, de mensalidades. Precisa de alguém que atenda ao telefone, que agende seus compromissos, que pense tecnicamente, burocraticamente toda aquela parte chata, enquanto você fica livre para a arte._ Angélica respirou fundo, falara tudo aquilo muito rapidamente.
Rique parou de mastigar a pizza e olhou para o homem sentado ao seu lado, lembrou-se do que a mãe lhe dissera sobre pretender trabalhar ali e parece que aquele momento era o clímax da questão.
_É, eu preciso de uma pessoa assim. _ ele reconheceu. _ Mas uma pergunta. De onde minha mãe te conhece?
Angélica seguiu as recomendações de Daniela e repetiu exatamente aquilo que ela lhe indicara:
_Ela conheceu minha mãe na juventude e achou que eu poderia ajudá-lo a cuidar da sua carreira e da sua casa.
_Ok. É isso.
_Isso? _ Angélica levantou a sobrancelha.
_Vamos tentar, vamos ver no que vai dar, eu sempre fiz tudo sozinho, mas não posso negar que preciso de alguém. É isso.
_ Claro, não vai se arrepender. Agora... Sua mãe me disse que você tinha um quarto vago e que eu poderia ficar aqui..._ Angélica temeu que aquele ponto pudesse atrapalhar seu emprego que já estava quase certo.
_Aqui?_ ele franziu a testa.
21.2.07
12.2.07
3 Na linha
_Olha a melancia, vai melancia, senhora?_ perguntou o vendedor, oferecendo um pedaço da fruta para Angélica. A moça olhou por cima dos óculos, examinou, não provou. Sabe-se lá onde ele colocou a mão?
Já estava bom aquelas sacolas. Não tinha dinheiro assim para esbanjar e comprar a feira inteira. Por mais que desejasse ver o filho Henrique o mais saudável possível.
_Rique não!_ fez um sinal negativo com o dedo, quando o menino apontou para a banca de pastel e cana._ Cana dá doença! É! Uns bichinhos que matam a pessoa! É isso mesmo... E esse pastel aí tem dias sendo frito na mesma gordura!
O menino esperneou e antes que pudesse chamar atenção com sua pirraça, Angélica abaixou-se e segurou-o pelos bracinhos:
_Olha para mim! Pára com isso agora, tá me ouvindo?! Papai do céu vai te castigar! _ bateu na mão dele._Cala essa boca agora!_ falou bravamente e o menino engoliu o choro com os olhinhos marejados. Seus olhos azuis reluziram com a luz do sol. O cabelo dourado espetado para cima o fazia parecer um pingo de ouro, um lindo garotinho em seus nove anos muito bem espertos.
_Mãe, eu tô com fome._ reclamou Henrique, sentado no colo de Angélica no ônibus que levava os dois de volta para o hotel. _ A gente não vai ter casa, mãe?
_Você está muito perguntador, menino!_apertou o nariz espevitado do garoto._ A mamãe veio para o Rio tentar a vida aqui... _ falou pausadamente e beijou o rosto dele, envolvendo-o em um abraço._ Vou arrumar um emprego que a vovó conseguiu aqui...
_A gente vai voltar para Brasília quando?
_Se Deus quiser nunca mais..._ sorriu Angélica e fez sinal para descer. Gritou para o motorista esperar, porque tinha criança para descer junto. Primeiro fez Henrique descer os degraus, depois pegou as sacolas de compra. Estava ainda muito chocada com a história da mãe que recentemente teve seu filho arrastado por um carro, quando não dera tempo de tirá-lo de dentro, após um assalto. Não saberia o que aconteceria se algo semelhante ocorresse com Rique. Ele era tudo de mais precioso que tinha.
Quem visse Angélica subindo pela ladeira, vislumbraria uma linda mulher recatadamente vestida, saia abaixo do joelho, cabelo amarrado em um coque, trazendo pela mão seu filhinho. Mas ela era muito mais que isso...
Chegando no hotel, lavou uma maçã e deu para Rique que se contentou em ver televisão deitado na cama ao seu lado. O telefone celular tocou e ela atendeu:
_Alô?_disse ela.
_Alô, é a Angélica quem fala?
_Ela mesma.
_Oi, eu sou o Daniel, minha mãe falou com você sobre um trabalho como administradora...
_Claro!_ Angélica sentou-se, era tudo que estava esperando.
_Então, podíamos marcar de você vir até aqui?
_Quando quiser.
_Pode ser hoje?_ ele perguntou.
_Hoje?_ Angélica olhou para Rique, com quem deixaria o menino, ainda não tinha conseguido uma solução para isso._ Tudo bem, hoje.
Já estava bom aquelas sacolas. Não tinha dinheiro assim para esbanjar e comprar a feira inteira. Por mais que desejasse ver o filho Henrique o mais saudável possível.
_Rique não!_ fez um sinal negativo com o dedo, quando o menino apontou para a banca de pastel e cana._ Cana dá doença! É! Uns bichinhos que matam a pessoa! É isso mesmo... E esse pastel aí tem dias sendo frito na mesma gordura!
O menino esperneou e antes que pudesse chamar atenção com sua pirraça, Angélica abaixou-se e segurou-o pelos bracinhos:
_Olha para mim! Pára com isso agora, tá me ouvindo?! Papai do céu vai te castigar! _ bateu na mão dele._Cala essa boca agora!_ falou bravamente e o menino engoliu o choro com os olhinhos marejados. Seus olhos azuis reluziram com a luz do sol. O cabelo dourado espetado para cima o fazia parecer um pingo de ouro, um lindo garotinho em seus nove anos muito bem espertos.
_Mãe, eu tô com fome._ reclamou Henrique, sentado no colo de Angélica no ônibus que levava os dois de volta para o hotel. _ A gente não vai ter casa, mãe?
_Você está muito perguntador, menino!_apertou o nariz espevitado do garoto._ A mamãe veio para o Rio tentar a vida aqui... _ falou pausadamente e beijou o rosto dele, envolvendo-o em um abraço._ Vou arrumar um emprego que a vovó conseguiu aqui...
_A gente vai voltar para Brasília quando?
_Se Deus quiser nunca mais..._ sorriu Angélica e fez sinal para descer. Gritou para o motorista esperar, porque tinha criança para descer junto. Primeiro fez Henrique descer os degraus, depois pegou as sacolas de compra. Estava ainda muito chocada com a história da mãe que recentemente teve seu filho arrastado por um carro, quando não dera tempo de tirá-lo de dentro, após um assalto. Não saberia o que aconteceria se algo semelhante ocorresse com Rique. Ele era tudo de mais precioso que tinha.
Quem visse Angélica subindo pela ladeira, vislumbraria uma linda mulher recatadamente vestida, saia abaixo do joelho, cabelo amarrado em um coque, trazendo pela mão seu filhinho. Mas ela era muito mais que isso...
Chegando no hotel, lavou uma maçã e deu para Rique que se contentou em ver televisão deitado na cama ao seu lado. O telefone celular tocou e ela atendeu:
_Alô?_disse ela.
_Alô, é a Angélica quem fala?
_Ela mesma.
_Oi, eu sou o Daniel, minha mãe falou com você sobre um trabalho como administradora...
_Claro!_ Angélica sentou-se, era tudo que estava esperando.
_Então, podíamos marcar de você vir até aqui?
_Quando quiser.
_Pode ser hoje?_ ele perguntou.
_Hoje?_ Angélica olhou para Rique, com quem deixaria o menino, ainda não tinha conseguido uma solução para isso._ Tudo bem, hoje.
2.2.07
2 Daniel precisa de uma administradora
Daniel depois das onze horas da manhã era outro homem. Sim, um homem e não aquele garoto que você, leitor, encontrou ontem dormindo na cama. Se havia uma única coisa que levava a sério era a casa de cultura que administrava. Tudo começou com um grupo de teatro que montou no período de faculdade. Eles ensaiavam no antigo casarão que seu pai lhe cedera as chaves. O casarão fora fechado um ano antes do seu nascimento, quando seu Ricardo se mudara para um apartamento e casou com Daniela.
A idéia cresceu e dois anos depois de graduado em artes cênicas, ele reformulou todo o espaço para que fosse voltado para comportar sua equipe. Ricardo, seu pai, não esperava que o filho tivesse dom para as artes e sim para os números, mas não pode reclamar quanto a matemática daquela equação, pois ela já dava frutos e permitia que Daniel morasse sozinho e se sustentasse.
Só que as proporções do empreendimento de fato já ultrapassavam o controle do rapaz. Aquele conselho que sua mãe lhe dera não era de todo ruim: contratar alguém que pudesse ajudá-lo a organizar tudo e assim deixá-lo com tempo para ensaiar com sua companhia. Não lembrou onde tinha colocado o telefone, mas ele foi encontrado e não da melhor maneira:
_Quem é essa fulana?_ Patrícia esticou o papel no ar.
Daniel levantou os olhos do computador e depois ignorou, não tinha tempo para os showzinhos da namorada, precisava calcular as despesas do mês.
_Angélica..._ ela leu alto o nome contido no pequeno pedaço de papel e depois o atirou na mesa. _... Estava no bolso da sua calça.
_Ah! Sim, é uma pessoa que minha mãe indicou para..._ Daniel parou de falar, simplesmente havia escolhido a palavrinha mágica errada.
_Sua mãe? O que ela quer agora? Escolher a cor das suas cuecas?!_ Patrícia riu alto e depois tentou recuperar a calma._ Ela está te empurrando alguém para...?
_Patrícia?!_ Daniel levantou-se da cadeira e falou alto e com a voz grave._ Esse é o meu trabalho, essa é a minha casa e essa é a minha futura funcionária _apontou para o papel_, e você vai para cama comigo, preciso distribuir melhor os papéis?_ ele usou de toda a sua estupidez. Era raro atingir esse nível de insatisfação, mas Patrícia escolhera a pessoa errada para implicar, a mãe de Daniel era intocável.
Ele costumava dar corda para Patrícia, permitia que ela tivesse a sensação de que tinha o controle de tudo e que ele era seu cachorrinho, isso servia para suprir sua carência de estar longe de casa aos 25 anos. Mas chegava um limite em que ele voltava ao trono e a lembrava quem ela realmente era: uma atriz que fora elevada ao papel principal apenas pelo fato de gostar dela. Gostar, não amar, Daniel não conseguia ficar sozinho, gostava de uma companhia, ela era essa companhia.
_Estúpido!_ ela saíra choramingando e chutando tudo. Daniel revirou os olhos e respirou fundo. Não demoraria muito para que ela esquecesse e ligasse toda melosa. Seus olhos se prenderam no papel largado na mesa, levemente tremulando no vento.
“Ela é diferente, totalmente diferente”, a voz de sua mãe lhe veio a cabeça.
Discou o número e esperou chamar.
_Alô?_ a voz atendeu do outro lado.
A idéia cresceu e dois anos depois de graduado em artes cênicas, ele reformulou todo o espaço para que fosse voltado para comportar sua equipe. Ricardo, seu pai, não esperava que o filho tivesse dom para as artes e sim para os números, mas não pode reclamar quanto a matemática daquela equação, pois ela já dava frutos e permitia que Daniel morasse sozinho e se sustentasse.
Só que as proporções do empreendimento de fato já ultrapassavam o controle do rapaz. Aquele conselho que sua mãe lhe dera não era de todo ruim: contratar alguém que pudesse ajudá-lo a organizar tudo e assim deixá-lo com tempo para ensaiar com sua companhia. Não lembrou onde tinha colocado o telefone, mas ele foi encontrado e não da melhor maneira:
_Quem é essa fulana?_ Patrícia esticou o papel no ar.
Daniel levantou os olhos do computador e depois ignorou, não tinha tempo para os showzinhos da namorada, precisava calcular as despesas do mês.
_Angélica..._ ela leu alto o nome contido no pequeno pedaço de papel e depois o atirou na mesa. _... Estava no bolso da sua calça.
_Ah! Sim, é uma pessoa que minha mãe indicou para..._ Daniel parou de falar, simplesmente havia escolhido a palavrinha mágica errada.
_Sua mãe? O que ela quer agora? Escolher a cor das suas cuecas?!_ Patrícia riu alto e depois tentou recuperar a calma._ Ela está te empurrando alguém para...?
_Patrícia?!_ Daniel levantou-se da cadeira e falou alto e com a voz grave._ Esse é o meu trabalho, essa é a minha casa e essa é a minha futura funcionária _apontou para o papel_, e você vai para cama comigo, preciso distribuir melhor os papéis?_ ele usou de toda a sua estupidez. Era raro atingir esse nível de insatisfação, mas Patrícia escolhera a pessoa errada para implicar, a mãe de Daniel era intocável.
Ele costumava dar corda para Patrícia, permitia que ela tivesse a sensação de que tinha o controle de tudo e que ele era seu cachorrinho, isso servia para suprir sua carência de estar longe de casa aos 25 anos. Mas chegava um limite em que ele voltava ao trono e a lembrava quem ela realmente era: uma atriz que fora elevada ao papel principal apenas pelo fato de gostar dela. Gostar, não amar, Daniel não conseguia ficar sozinho, gostava de uma companhia, ela era essa companhia.
_Estúpido!_ ela saíra choramingando e chutando tudo. Daniel revirou os olhos e respirou fundo. Não demoraria muito para que ela esquecesse e ligasse toda melosa. Seus olhos se prenderam no papel largado na mesa, levemente tremulando no vento.
“Ela é diferente, totalmente diferente”, a voz de sua mãe lhe veio a cabeça.
Discou o número e esperou chamar.
_Alô?_ a voz atendeu do outro lado.
Assinar:
Postagens (Atom)